terça-feira, 4 de outubro de 2005

NÃO! ao desarmamento


porque hoje as nuvens escondem as estrelas, mas eu sei que elas estão lá. porque hoje o calor que vem da rua me faz sentir saudade do frio. porque hoje tenho a sensação de fome mesmo já tendo almoçado e jantado. porque hoje a respiração vem lenta e realça o trajeto por onde passa o ar. porque só agora percebo que não escutei música, e sem música não posso ficar, porque estou para a melodia assim como para a poesia e ao amor. porque hoje estou cansada de números, de índices, de taxas de juros, de analistas que falam sobre a alta do dólar e a queda das ações da bovespa. porque as minhas palavras nunca acompanham a rapidez do meu raciocínio. porque dependendo da pessoa ou do acontecimento entrego apenas o silêncio. porque tenho pés cansados, pernas em almofadas e corpo a esperar. porque desejo estar em outro lugar. porque hoje releio textos, matérias, entrevistas e me emociono com adelaide e com a li. porque hoje o porcas não foi atualizado. porque hoje não escrevi para o cb. porque hoje queria um forte abraço, mas também o barulho de água corrente ao dormir. porque estou longe de ter certezas como adelaide pensa, mas mesmo na dúvida, opino.

tudo isso para dizer: sou mesmo contra o desarmamento, e raul, você é um chato de galocha.

explico. raul é um conhecido que só encontro quando o acaso resolve colocá-lo em meu caminho. hoje foi um dia desses. faltava apenas uma estação quando ele veio indignado em minha direção dizer: "como uma jornalista, escritora e atriz do seu quilate pode ser contra o desarmamento?"

amigos, por favor, peço sincera ajuda. "quilate" é:

a) cachorro que ladra, mas não morde.
b) cachorro que ladra e morde.
c) é um cachorro que late.
d) é apenas um cachorro.
e) não é cachorro, é ouro.
f) todas as alternativas acima estão corretas.
g) todas as alternativas estão incorretas.

arnaldo jabor deve estar certo ao dizer que a idiotice é vital para a felicidade. “gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. a vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado?” também já ouvi isso de outro alguém especial...

mas, por favor. alguém pode explicar a colocação de raul? o que tem o fato de ser jornalista, etc com o fato de ser contra o desarmamento? o que tem uma coisa a ver com a outra?

talvez tivesse que ter dito a ele que não sou artista contratada da globo, logo, não preciso abraçar a posição tendenciosa da emissora. que bom! entre tantos “senão”, ainda posso me dar ao luxo de ser contra algo que inspira terror. ou se preferir, ser a favor do livre arbítrio. mas como resposta a raul, levantei, se muito, uma sombrancelha, e me esforcei para desenhar um semi-sorrriso. talvez o certo fosse mesmo ter explicado a ele o que penso, mas frente ao argumento, desanimei. deixei o dito pelo não dito, e desejei a ele dias melhores pra sempre.

engraçado é que ontem mesmo, em resposta à adelaide
, que viu o post abaixo e disse ter ficado meio zonza com o meu posicionamento, reafirmei que acho, sim, que a situação atual sobre o desarmamento no brasil é parecida à era hitler e de todos os tiranos que vocês tiverem em mente.

não tenho arma em casa, nem fui criada com arma. para se ter idéia, até revólver de brinquedo meu pai sempre proibiu taxativamente entre os meus irmãos (somos uma trupe de 5 filhos), e permanece a conduta com os 2 netos. mas lembro de uma vez, ainda criança, de férias (com tios e primos, um dia longe dos pais), termos tido a oportunidade de atirar em poucas latinhas de cerveja com uma espingardinha de chumbo (devidamente acompanhados de um adulto, irmão de uma tia, que não é nosso tio). nós adoramos. foi em itabira, terra de drummond. contamos empolgados a experiência. a seriedade na face do meu pai nem precisaria vir acompanhada da fala: "arma é perigosa e pode matar alguém". nunca mais a experiência se repetiu. "brincadeira de pé e mão nunca deu certo", era o que também ouvíamos em casa, quando começávamos a brincar de luta ou a querer provocar quem estava quieto. e realmente, as brigas, quando ocorriam, eram verbais. havia uma série de palavras que também não podiam ser proferidas, e por conta disso, adotei figuras geométricas como palavrões. quando meus irmãos me irritavam eu os xingava de "círculo", "quadrado", "retângulo". e quanto mais figuras aprendia, mais estendia aquele parco vocabulário. como eles achavam engraçado, a caçula era provocada até que soltasse um "trapézio isósceles" no ar.

mas por que conto isso?

ah, é mesmo. é porque o governo quer proibir a venda legal de armas e acho absurdo. e desconfio. se o governo faz tanta campanha é porque existe algo por trás (e para mim é óbvio que não pode ser bom). se o governo faz tanta campanha e a rede globo convoca seu escalão de artistas para também abraçar a causa, sobe um frio na espinha inenarrável. a desconfiança mais que triplica.

se proibir a venda de arma fosse resolver alguma coisa, diminuir a violência, etc e tal, alguém pode me explicar porque é tão fácil conseguir papelotes de cocaína, maconha, pedras de crack, ecstasys, se as drogas também são proibidas? alguém pode me explicar porque o álcool, que é uma droga, tem consumo livre para os maiores de 18 anos, e mesmo sendo proibido, como tantos adolescentes bebem cerveja, pinga, tequila, vodka e o que mais desejarem? e que ninguém seja ingênuo ao dizer que eles bebem quando os pais saem de casa, porque são os bares das cidades estão sempre abarrotados deles.

o que é arma, afinal? a bala disparada de algum revólver ou o número de acidentes de trânsito cada vez maior? o que fere? o que mata? a bala? ou também a foice, o machado, a água fervente, o ferro quente, o cabo de vassoura, o tapa, o murro, o canivete, o soco inglês, o caco de vidro erguido pelo moleque no farol a ameaçar cortar o pescoço em troca de “cinco ou dez real”?

então volto ao passado para ir mais além.


passei boa parte da infância e da pré-adolescência indo para o sítio todo o final de semana, e era comum ter um facão nas mãos. é que eu adorava me embrenhar no mato, fosse pra catar bambu e fazer pipa com o meu irmão ou amigos, fosse pra adentrar o canavial e me deliciar com gomos e mais gomos de cana (gosto muito mais do gomo que da garapa), fosse para abrir caminho para apreciar o rumo de alguma bonita borboleta.

muitos poderiam se espantar: o que faz uma criança com um facão? no entanto, sempre usei a ferramenta com critério.

então, me desculpem. mas ainda acho que o mal (e a insensatez) está no espírito das pessoas, não no que elas têm na mão.

o que mais?

acho que o governo quer criar um canal a mais de corrupção. a indústria da multa, os impostos, os caixas 2, a taxa do lixo, o tráfico de drogas, os mensalinhos, os mensalões parece não render o suficiente. e justamente por ser jornalista, seu raul, é que fico mesmo revoltada de termos um governo tão indecente clamar por postura e conduta do cidadão de bem. é por essas e outras que morro de raiva cada vez que tenho que ir ao banco e aquela porta trava, e sou obrigada a despejar meus pertences no compartimento ao lado para depois retornar à faixa amarela e rodar a porta de novo. qualquer dia coloco um absorvente no compartimento para evidenciar o ridículo e o absurdo da situação. eles alegam segurança. segurança pra quem? por que já repararam? a porta só trava na hora de entrar, nunca na hora de sair. e bandido, quando quer, nunca é barrado por aquele sistema.

também me revolto por termos um governo que torce e retorce fatos, que estimula um referendo com uma pergunta capciosa, que mascara a realidade ao dar a entender que a opinião do povo é mesmo importante para alguma coisa. precisamos de cultura, conhecimento e saúde. essas, sim, são as verdadeiras armas para ser fazer uma reviravolta neste país, que sobrevive aos trôpegos, com um povo na roda da depressão, aliás, muito bem citado por adelaide, na entrevista que concedeu ao porcas. ela diz: "
tenho a impressão de que o povo brasileiro - a maioria de baixa renda e necessitada de tanta coisa que nem chegou ainda à consciência - já é um povo a caminho da depressão. a alegria do carnaval e o futebol são paliativos, mas o dia-a-dia é massacrante o bastante."

é, adelaide, carnaval e futebol são apenas anestésicos para um povo que vive na pendura dos dias e dos salários que beiram a fome.

por essas e outras, realmente não acho que o fato de ser contra o desarmamento me faça ser contra a paz e o meu povo. pelo contrário, sou contra o desarmamento porque só assim acredito que um dia teremos um pouco mais de paz. talvez a ingênua seja eu, talvez não. sei que não abençôo tiranos, nem quero pecar por omissão. ao menos, quero deitar tranqüila e repousar minha cabeça sobre o travesseiro.

e a discussão cai em círculos, corro o risco de me tornar repetitiva, repetitiva, repetititva, troca o disco! e começo a fazer piadas que ninguém, além de mim, deve rir. alguns falam de balas perdidas, mas bala perdida que acerta um alvo é bala achada, gente. e sabe? das vezes que fui atacada, não foi com revólver, mas com peixeira (que rasgou minha roupa e me filetou abaixo do seio até o umbigo quando ainda escrevia o livro) e um canivete, quando me agarraram numa escada rolante de metrô. e quando consegui fugir de skinheads, era a marcha de tchacos e correntes que se ouvia. nada de gatilhos.

tudo isso para repetir que embora eu não porte arma, acho que o cidadão de bem que queira ter uma, porque acha que assim estará mais seguro, tem que ter. os bandidos já estão armados até o último fio de cabelo, e estes, permanecerão fora da lei. então, para esses, tanto faz que proíbam o uso das armas, eles já transgridem todas as leis.

se os bandidos no lugar de dentes têm balas, por que um cidadão do bem não pode ter também, e veja, legalizada? é questão de direito, de escolha, do ir e vir...


sinceramente, não vejo sentido algum os cidadãos de bem devolverem suas armas e os bandidos (leia-se aqui governo, polícias civil e militar, etc) permanecerem com suas escopetas, R-15 e metralhadoras de plantão. aliás, alguém pode dizer como, por exemplo, os traficantes conseguem armas tão (ou mais) poderosas que dos exércitos?

entendo o simbolismo que adelaide fala em relação à paz, mas opto por não aceitar esse pensamento, porque ao governo e aos bandidos faltam sensibilidade para captar a grandeza do gesto. e realmente não acredito na boa intenção dos governantes. como disse à adelaide, ainda acredito na paz e na poesia. acredito no amor, aprecio flores... e balas, prefiro mesmo as de gomas. mas não tenho como ser a favor do desarmamento. preciso sentir a democracia embaixo dos pés... até que um dia, por morte natural ou acidental, eu morra.

não sei se ao falar das nuvens, das estrelas, das palavras que nunca acompanham a rapidez do meu raciocínio, me perdi no verbo. mas fica o meu abraço afetuoso à dona do porcas, que por nada de novo ter escrito hoje, me fez deleitar novamente em posts e na ótima entrevista que fez com adelaide, que tem uma delicadeza ao expressar pensamentos, e à li, que como deus, escreve certo por palavras tortas (e viva o trocadalho!).

quanto a você, raul, deixa de ser ranzinza, mau humorado e chato. pior que morrer "por morte morrida, à bala", é morrer sem graça, sem riso, sem dança, sem amor. acho ainda que morrer em vida deve ser o verdadeiro (maior) temor.

9 comentários:

Catarina disse...

um beijinho grande
partilho a tua tristeza..

Anônimo disse...

ana, gosto sempre de ler suas palavras, embora nunca registre aqui. mas tinha que dizer que concordo com você pra valer. sem livre arbítrio, não dá. todas essas coisas entristecem a gente e o país. beijão do seu amigo que sente saudade e nunca mais te viu, caio.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Muito legal sua colocação, Ana Laura. Comungo com tudo o que você diz e, falo sobre isto lá no meu blog (não com sua delicadeza, pois sou meio grossa :)), o Filha da Pátria

um abraço de Ayla (uma filha da pátria)

li stoducto disse...

oi, querida! ;)

só vim pra dizer que "Li esteve aqui"!

beijos

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